1° Edição, 1° revisão
Vira e mexe, lemos no noticiário as manifestações de preconceito sobre a opção de gênero.
Analisar o assunto apenas pelos ânimos do sentimento ou dos conceitos culturais da nossa cultura pode ser uma forma de pensar que deseja ignorar outras possibilidades, o que torna o julgamento tendencioso e, portanto, injusto.
Partindo-se da premissa de que o indivíduo nega a existência de um princípio que sobrevive à morte, então ele fica circunscrito às hipóteses onde o comportamento psicológico advém de uma variação somática, ou seja, da genética que constituiu a pessoa.
Simplificando, se não existe alma, então só resta a matéria do corpo.
Seria o pensar e o sentir uma consequência de códigos genéticos???
Materialistas ficam restritos à matéria, o que os torna limitados.
Admitindo-se a existência da alma, podemos expandir as hipóteses, separando a natureza da alma daquela do corpo.
Assumindo tal perspectiva e também admitindo-se que a vida fosse uma expressão única, ou seja, uma única oportunidade de “existir”, então resta aos seus devotos dirimir as dúvidas decorrentes:
“Por que Deus criaria almas assim?”
Umas felizes com o seu corpo, outras não?
Ou algo se cria antes mesmo de existir?
Tal paradoxo inviabiliza essa possibilidade, porque mesmo que a escolha ocorresse logo após a existência, qual o princípio que levaria a alma a diferentes escolhas? Este pensamento retorna ao anterior, onde Deus não criaria todas as almas iguais.
“Se não for Deus, então seria uma condição genética, e neste caso, por que o indivíduo levaria a culpa?” Seria o mesmo que responsabilizar um recém-nascido por uma deficiência congênita, como por exemplo, leucemia. Esta hipótese recai naquela do materialismo.
O ateu, tanto quanto o teísta que admite apenas uma vida na experiência da alma, ficam diante de perguntas difíceis de responder com lógica plausível, e acabam alimentando a dúvida que enfraquece a própria fé.
E se admitirmos a existência da jornada evolutiva da alma, trafegando através do tempo por meio de múltiplas existências terrenas, onde o corpo físico é o meio que viabiliza a sua permanência na matéria densa, tal qual o mergulhador que usa diferentes escafandros mediante vários mergulhos?
Sob tal contexto, fica fácil considerar que a alma sendo independente do corpo prescinde do gênero, mas que talvez diante de experiências físicas anteriores sob outro gênero poderia definir uma postura de identificação psicológica que antagonizaria com o seu gênero na existência atual.
Trabalhando sob o contexto da multiplicidade de existências, podemos acrescentar outras soluções, aumentando a coerência às respostas que o ato de existir exige nos momentos difíceis.
Neste pequeno ensaio, um laboratório para o pensamento, procura-se mostrar que boa parte das nossas atitudes consideradas “racionais” partem de premissas fracas diante de questionamentos mais argutos.
Fica fácil entender tantos problemas que poderiam ser evitados quando percebemos que a origem deles nasce em sistemas mais restritos ao pensar, e cujas consequências trazem uma sucessão contínua de violências mútuas.
Em termos gerais, a nossa civilização ainda terá um longo caminho a percorrer na reavaliação da concepção de Deus e da alma.
Diante do conflito e da extrema intolerância no Oriente Médio, o embate entre Israel/EUA e seus inimigos inspira o pensamento neste sentido.
Os judeus pedem a Jeová (Deus) e certamente esperam Dele a sua proteção.
Os muçulmanos pedem a Allah (Deus) a mesma coisa.
Nos EUA, aproximadamente 70% da população é monoteísta, dividida entre protestantes (~45%) e católicos (~22%) e outros grupos religiosos menores.
Já que todos os países envolvidos adotam em sua maioria o conceito monoteísta, ou seja, um Deus único criador de tudo, então parece lógico pensar que seriam os mesmos, isto é, Allah é Jeová, e só muda o termo em função das diferenças de idioma.
Neste contexto, como ficaria Deus diante deste conflito entre judeus/estadunidenses e muçulmanos, ambos pedindo pela própria proteção e vitória, sendo que todos são irmãos em humanidade?
Sendo Deus uma única entidade, podemos imaginar que, quando Deus atender a um lado, poderia estar traindo o outro!
Ou será que, quando o pedido é conflitante, Ele ignora?
E neste caso, os dois lados acabam à deriva?
Se você perguntasse a um religioso fanático, será que ele aceitaria admitir rezar para o mesmo Deus do seu inimigo mortal?
Algo assim entraria na cabeça daqueles menos aquinhoados?
Ou será que o indivíduo imagina lá no seu íntimo que exista alguma diferença entre o seu Deus e aquele do inimigo? Neste caso, não viraria o Olimpo grego, onde os deuses disputam o poder entre si? Mas o indivíduo monoteísta não pode acreditar que existam dois, pois nega o conceito básico de Deus único.
Outra hipótese seria pensar que muçulmanos, estadunidenses ou judeus nunca pedem a Deus por suas vitórias nas guerras entre eles!
Difícil acreditar...
Só resta uma opção sensata, considerando que a diferença estaria na maneira como cada um deles concebe o que seria Deus, e como ele se manifesta.
Dessa forma, a diferença na compreensão dos princípios que emanam da natureza divina única e que define a forma de prestar o louvor de seus fiéis, acaba por estabelecer um ponto comum onde Deus é único, porém com naturezas diferentes, o que conduz o pensamento de que ao menos dois deles sejam criações falsas da vocação religiosa do Homem.
Conclusão:
Mesmo o melhor dos princípios, se obrigado a coexistir com outros cuja natureza colide com a sua grandeza, então transforma-se no psiquê humano como algo à parte, isolado em compartimentos estanques do pensamento, onde o questionamento vira sacrilégio e perjúrio em regimes teocráticos despóticos.
Conceitos equivocados patrocinam cadeias de equívocos assim como desafiam a sanidade dos melhores princípios, abrigando a incoerência das perguntas sem respostas que tornam a crença a arte de crer sem pensar, onde a fé sustenta o direito de ignorar as incongruências do pensamento humano.
Um dia, bem lá na frente, haverá um só pensamento, onde ciência e religião terão feito as pazes, sendo que a primeira continuará avançando a fronteira do conhecimento, e a segunda sustentará a compreensão além dessa fronteira, onde a fé será o fruto da consolidação do pensamento livre dos martírios impostos por suas incongruências mais cruéis.
NOTA DO AUTOR:
Esta postagem, embora de cunho filosófico-religioso, não questiona os méritos da fé, mas a coerência dos atos praticados que dela derivam.
Nenhum comentário:
Postar um comentário