1° Edição, 1° revisão
Muito sangue já foi derramado em nome de
"Deus", e continua sendo.
É o subterfúgio Humano do desejo obsessivo
de submeter o próximo àquilo que pensamos, mesmo que as diferenças não sejam
tão díspares.
Não importa a concepção que façamos de Deus, seja ele a mãe natureza, uma
entidade superior única ou coletiva, atribuímos a Ele a responsabilidade pela
geração da vida e a sua manutenção.
É difícil congruir a lógica desse pensamento onde algo superior dite o
fraticídio da sua própria criação, quando Ele mesmo teria o dom de fazê-lo,
seja pelo filtro da sua criação ou pela duração de sua existência.
Isso sugere um pensamento prepotente que talvez tivéssemos que corrigir as
ações do nosso próprio criador, ou ao menos, que sejamos imprescindíveis nas
tarefas que a Ele atribuímos.
É insano.
Algo assim tão inverossímil só encontra residência na alma que carrega tudo,
menos Deus.
O cristianismo, o islamismo e a antiga
religião nórdica (Vikings) negam o conceito de vida cíclica entre dois
estados da alma, algo geralmente conhecido por reencarnação.
O judaísmo, embora siga por essa linha de
pensamento, todavia adiciona o conceito de temporalidade do estágio da alma em
direção de algo melhor após a morte (Gehinnom), exceto para almas
essencialmente más.
No velho mundo grego predominava o sentido
de vida única, entretanto, alguns segmentos filosóficos gregos admitiam a
possibilidade da metempsicose, enquanto os romanos, através de uma visão estoica
da alma, entendiam que o estado cíclico seria uma recorrência cósmica que
conduzia a ciclos de destruição (ekpyrosis) e renascimento.
As religiões druídicas, budistas,
hinduístas (Samsara), africanas, e o Kardecismo têm a reencarnação como ponto central que
se traduz em um processo evolucionista da alma através de existências cíclicas
na matéria que subsidia as oportunidades de reparo e conciliação com o
sentido comum ao senso da divindade que rege os nossos destinos.
O materialismo concebe que a vida surge
pela matéria e morre com ela, ancorando sua origem mediante uma combinação
peculiar de condições físico-químicas ao longo do tempo.
Podemos resumir em duas grandes vertentes o pensamento humano, agrupando
as religiões em dois grupos. Aquelas que aceitam a reencarnação, e as outras que a rejeitam.
Dentro do grupo de religiões que abraçam a reencarnação como o processo
evolutivo da alma, podemos ainda dividi-lo em dois subgrupos.
Aquelas religiões que entendem que o espírito possa habitar formas físicas
diversas, e as outras que restringem tal pensamento condicionando que o
estado evolutivo da alma jamais regride na sua expressão existencial durante as
reencarnações, a exemplo do Kardecismo.
O maravilhoso dessa diversidade é que propicia a liberdade de escolha ofertando
o modo de pensar mais próximo à natureza de cada um e ao sentido de vida que se
deseja empregar para a nossa existência.
Não importa qual seja a escolha, todas elas trazem efeitos colaterais de
angústia e ansiedade quando a alma busca respostas além do que pode encontrar
em seu próprio credo, seja por falta de empenho, oportunidade ou recursos
teosóficos.
Tais perguntas sem repostas sobrecarregam o estado de espírito e podem reforçar o sentimento de “culpa” uma vez que todas as religiões têm carácter meritório,
ou seja, entendem que a punição ou gratificação advém de nossas escolhas,
incluindo o materialismo pelas consequências da lei física de ação e reação.
Esse sentimento de “culpa” subsidia o senso humano regulando o controle social
através do medo ou da recompensa catalizados por um senso comum que a nossa
consciência elabora mais cedo ou mais tarde, traduzindo-se em algo difícil de
explicar, e que também é impossível de escapar indefinidamente desse
processo, exceto nos estados psicóticos de profundo desequilíbrio emocional,
enquanto ele durar.
De qualquer forma, os conceitos que constroem nossas percepções religiosas ou filosóficas modelam o
propósito de viver.
Se vida é finita, a sua origem favorece ou condena por um mérito concedido ou
negado por algo superior sem atrelar a contextos anteriores que justifiquem tal
escolha, já que a existência é única, não abriga passado.
Se a vida é infinita, manifestando-se pela evolução constante através de
vivências sucessivas, o peso da importância da origem da alma é amenizado pela
renovação das oportunidades que se alternam, onde as aparentes desigualdades
entre cada ciclo são compensadas ao longo desse processo que se renova mediante
novas oportunidades e contextos.
Então podemos arriscar o seguinte pensamento, um corolário que enfeixa algo
pragmático indiferente à modalidade religiosa de qualquer opção.
Se não controlamos a origem, o senso de culpa se dilui pela amenidade de uma
natureza que carregamos cuja origem é parte desse processo natural de evolução
alheio à nossa vontade no ato da criação.
À medida que nos perdoamos por algo cuja origem não controlamos, passamos a
conviver com um sentido onde a culpa assumi apenas a função do desconforto que
sinaliza a necessidade de reparo, e portanto, torna sem sentido cristalizar-se
na ideia fixa de autopunição, que encharcando a alma de sentimentos
autodestrutivos apenas compete com o verdadeiro propósito da vida mediante o
reparo pela compensação e pelo empenho constante da nossa melhoria, único meio
que aconchega a alma e devolve a paz de espírito perdida.
O efeito colateral de perdoar a si mesmo mediante a contrapartida pela correção, também torna mais fácil perdoar o nosso próximo mediante a
compreensão que somos "irmãos" que compartilham as mesmas fraquezas
de uma natureza em que fomos forjados.
Em curtas palavras, faz mais sentido trocar a autopunição pelo pragmatismo da
ação já que não sabemos ao certo a origem dessa natureza claudicante sob o
processo inegável da evolução que rege a vida, transformando essas diferenças
em detalhes temporais, porque também elas acompanharão a renovação constante
daquilo que compreendemos ao longo desse caminho cujo processo dinâmico é
comandado por um princípio único de transformação em direção à expressão maior
do sentido de viver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário