janeiro 25, 2026

Você e Seu Filho - Ligando os Fatos

 

1° Edição, sem revisão



Nota

Esta postagem avança em terreno polêmico e muito emotivo.
Peço aos pais que me perdoem e considerem o texto como uma iniciativa bem intencionada de colaborar com a super difícil arte de educar filhos.

Parabéns a todos os pais que buscaram o melhor de si, mesmo diante do insucesso, da decepção ou do desespero.

Nesta oportunidade, também deixo aqui o meu pensamento carinhoso aos meus pais.
O que conta mesmo são os acertos, já que somos todos almas em evolução, e por isso não existe espaço para qualquer mágoa, mas gratidão.



Efeitos da Conjuntura Adversa


Na postagem anterior, Difícil de Entender Se Não Deixarmos A Paixão De Lado 3 - A Caixa de Pandora, foi ressaltado o volume descomunal de desinformação.

Nesta outra, Difícil de Entender Se Não Deixarmos A Paixão De Lado 4 - DESCONHECIMENTO, é mostrado os efeitos de uma base mal formada para o enfrentamento da vida, assim como a fundação de um prédio que não sustenta o seu peso.

Ligando os fatos, temos que a geração do século XXI sofre de hiper informação com baixo índice de qualidade.
Ou seja, é muito lixo competindo com aquilo que realmente faz diferença.


Se o volume de informação é excessivo, o tempo para ponderar desaparece proporcionalmente à sua velocidade de ingestão.

A maioria das coisas tem dois lados: um bom, e o outro.
A tecnologia acelerou os processos humanos em todas as áreas.
Acelerar processos é acelerar a vida.

Infelizmente, não existe ganho sem perda.
Se de um lado não precisamos mais compor as filas nos bancos para pagar contas, de outro lado, temos que conviver com um mundo sem conseguir tratar o desafio humano de lidar com tanta informação, já que a capacidade humana de absorção não acompanhou com a mesma intensidade!

Hoje, a vida trafega pelas vias da informação porque a individualidade depende dela, e a 
defasagem humana aumenta à medida que a tecnologia acelera cada vez mais.

Hoje, as caixas de e-mail atoladas de informações importantes mesclam-se com aquelas que não são.
As necessidades do trabalho trafegam na velocidade de um clique.
As reuniões se materializam em links ao longo dos dias através de chamadas em grupo.
Você entra no supermercado e paga via PIX, uma operação em tempo real, quando no século passado era preciso esperar a famosa "compensação" para ver seu débito lançado.


O Desafio das Novas Gerações

Então eu penso no jovem, aqueles que nasceram sob o vórtice da digitalização mundial.
Boa parte da geração que é filha dessa digitalização sofre da ansiedade pelo consumo excessivo de informação.

O consumo é tão rápido que apenas sobra tempo para ponderações magras.

Um fato indiscutível é o comportamento do usuário de TikTok.

A leitura cedeu lugar para a imagem na ordem de importância.
O modo de absorção é passivo. Um vídeo rápido, logo substituído por outro.
Sobra apenas a sensação de satisfação pela passagem do tempo como quem se diverte, mas a verdadeira aprendizagem fica à deriva quando é preciso filtrar e ponderar. Não dá tempo. 

O consumo pelos cliques que se repetem quase que mecanicamente, ou mesmo por um hábito nervoso dessa ansiedade que não questiona muito além do agora e apenas procura o interessante, abaixa a guarda da crítica pessoal.

Uma mensagem repetitiva no teor, embora de formas diferentes, seja explícita ou subliminar, tem o poder de influenciar e formar padrões mentais, doutrinando o indivíduo mediante ações proselitistas cuja natureza têm origem em toda sorte de objetivos válidos ou duvidosos.


Os Pais vs. a Conjuntura

Então os pais se surpreendem com a mudança comportamental dos filhos, quando se esqueceram de observar discreta e silenciosamente as suas preferências, tais como os tipos de "games" que gostam, as roupas que rejeitam, a linguagem que usam.

A Velha Política de Educação


A forma usual dos pais é educar pela repreensão ou recriminação.

Quando somos repreendidos, e não temos opções de escolha, atendemos ao contexto, mas preservamos nossas posições íntimas no sigilo da nossa privacidade, aumentando a distância entre o ator que senta à mesa com a família, e aquele outro da vida longe deles.


Alternativa de Diálogo

Talvez uma solução para a recriminação fosse oferecer percepções ao invés de impor proibições.

Expressões como:
   Não quero palavrões!
   Olha a boca suja!

são agentes bloqueantes, ditatoriais.


Em contrapartida, ao oferecer contextos de opções, mantém-se o canal de comunicação mais autêntico.

Exemplo:

O costume faz a prática, e acabamos por usar inadvertidamente termos pesados em ocasiões que nos trazem prejuízo. Que tal treinarmos isso às refeições e evitá-los?

Ao invés de reprimir, você educa porque substitui o "tirano" pelo sábio que mostra as vantagens daquilo que é proposto.


Experiências Colhidas na Prática

Eu não tenho filhos, e sinceramente, se os tivesse tido enquanto jovem, teria cometido os mesmos erros de meu pai!

A vida me trouxe oportunidades de crescer e testar o produto de experiências passadas que buscavam solução na minha intimidade de filho.

A vida me trouxe duas grandes oportunidades.

A Primeira

A primeira foi no âmbito familiar no trato do relacionamento com meu pai.

Tudo fluiu muito bem enquanto eu parecia a sua cópia.
O relacionamento degringolou drasticamente quando comecei a ser capaz de me opor a algumas de suas ideias que não suportavam um exame mais minucioso, ficando ele sem opção de réplica cabível.

Se ele sofreu nestes momentos, eu também!
Foi sofrido vê-lo abraçar mais o sentimento de humilhação que a oportunidade de compartilharmos bons momentos juntos.

Passei a evitar tais contendas.
Por conseguinte, eu comecei a me sentir mais visita que filho, nascendo um desejo extremo de sair de casa e encontrar o meu canto. 

A Segunda


A segunda oportunidade foi com grupos de jovens em ocasiões diferentes.
Esses grupos incluíram desde filhos da favela como também aqueles que nasceram fora delas.

Nestas ocasiões eu pude viver o papel de moderador nas discussões de grupo, trabalhando a informação no sentido de promover o raciocínio, mais que buscar transmitir um conceito imposto daquilo que achamos certo.

A estratégia era apresentar alternativas de princípios básicos e estimular por meios divertidos as escolhas a fazer, substituindo a imposição formal, ou seja, o monólogo imperativo.

A descontração deixava os jovens à vontade para serem o que são.

Neste clima, eles elogiavam ou criticavam um pensamento, ou uma situação proposta, à medida que eu ia oferecendo os possíveis desfechos de cada proposição que faziam quando não eram capazes por si próprios, deixando para eles a solução de algo que não haviam percebido.

Eu não apresentava a conclusão.
Estimulava que chegassem a ela por si mesmos.

O que me chamou a atenção é que as crianças começaram a chamar seus amigos.
O grupo foi crescendo e diversificando nas idades, e para a minha surpresa, até mesmo as crianças menores participavam com bom aproveitamento, porque a informação vinha em parte de outras crianças mais velhas.

Foi surpreendente, e bem além do que eu esperava inicialmente!

Os Efeitos Colaterais do Sucesso

Em um desses grupos, o método deu tão certo, que alguns cresceram muito na capacidade reflexão através da anamnese filosófica, e passaram a questionar os pais da mesma forma, contudo a ponto de superá-los no questionamento da propriedade de suas ações.

Pais não são perfeitos só porque se tornaram pais.
Isso obrigou que alguns pais precisassem reformular um pensamento ou outro.

O desconforto de imaginar que já não mais detinham o "cetro da verdade familiar inquestionável" trouxe severas críticas ao método usado naquelas reuniões, indo parar nas mãos de uma juíza que me pediu satisfação sobre a minha prática antes de seguir adiante com as medidas judiciais cabíveis que lhe foram propostas pelos pais. Era uma cidade de interior e o juiz neste contexto acaba mais acessível.

Precisei comparecer à presença do juiz pelas mãos de um oficial.
Uma vez explicado como eu agia e qual o propósito, o processo judicial se extinguiu antes mesmo de nascer.

Não havia lavagem cerebral, nem doutrinação.
Era apenas exercício da capacidade crítica, algo que é a base da boa "Democracia", um conceito essencial em regimes verdadeiramente democráticos.

Dessa experiência, deduzi que o processo só se tornaria completo se os pais se dispusessem concomitantemente à mesma laboração que as suas crianças viviam, já que muitos deles foram crianças que não tiveram a oportunidade de desenvolver a análise crítica, sofrendo as consequências dessa lacuna.

Os Resultados da Omissão

Se os pais não ensinam os filhos com o propósito maior de estimular o processo crítico, mais que incutir à força uma ideia, alguém o fará porque seus filhos estarão despreparados na arte da ponderação e vulneráveis às influências que imaginam válidas por serem amigáveis, uma vez que muitas dessas crianças veem seus pais mais como agentes fiscais policiando suas vidas do que como amigos com quem possam trocar ideias.

Um convívio assim os deixa o jovem à mercê das doutrinações por lavagem cerebral já que se sentem inclinados a absorver a influência de fontes "amigáveis" e a rejeitar as informações daquelas de origem inamistosa.
Essa atitude não é surpresa, já que todos nós o fazemos também na fase adulta.

Convém lembrar que o início da nossa absorção cultural inicial é passivo, ocasião em que aprendemos a agir como os demais durante o período da vida em que ainda não temos a habilidade para questionar, ou mesmo a percepção de que isso exista. Simplesmente aceitamos.

Mais tarde é que começamos a questionar algumas coisas, mas a maioria delas reside como base comportamental em nosso consciente/subconsciente como verdade tácita — algo que aceitamos como natural, óbvio, sem necessidade de questionar, ou mesmo proibidos em fazê-lo.


O Preço

Todo método tem seu lado negativo, e o sugerido aqui não é exceção, exigindo muito mais habilidade e esforço dos pais.
Eles também ficarão mais expostos aos seus próprios erros e contradições, uma barreira que precisarão vencer pelo esforço contínuo de despojamento.
Eles precisarão lembrar constantemente de responder à pergunta:
O que desejo ser: um tirano ou um amigo com mais experiência?


Diante de mais questionamentos, e do desconforto de exporem seus limites, precisarão crescer em paciência, humildade e simpatia, substituindo o processo de transmissão de ideias sem questionamentos, o famoso "faça o que eu mando". Este último processo funciona apenas durante o período em que a criança é passiva na absorção de conhecimentos.

Tão logo a criança desenvolve a capacidade crescente de introspecção, o processo de aceitação precisa passar pelo crivo da sua racionalização em fase de crescimento, momento que oferece uma oportunidade única para os pais estimularem essa habilidade sustentada pelo diálogo livre pelo exame crítico e espontâneo das perspectivas, sempre sob o clima de descontração e carinho que proporcionam chances mais positivas de sucesso nas escolhas.

OK!
O sugerido é bem mais trabalhoso, não resta dúvida, mas vale a pena.


O Vácuo Traga Tudo

Se os pais não estimulam a construção do cerne mental de seus filhos, então outro o fará, ou ficarão à deriva do vácuo que traga o sentido de viver, deixando-os frágeis às vicissitudes e às influências diversas.


Certa vez, uma amiga que havia divorciado, me contou o problema vivido com o filho, ocasião em que eu compartilhei com ela essas experiências.

Ela rejeitou a sugestão explicando que não se sentia capaz de aplicá-la na prática, e que ela deixaria o filho aprender com a vida.

Silenciei.
Qualquer insistência seria contraditória àquilo que penso.

Mais tarde, essa mesma amiga desabafou comigo que o filho começava a mudar a sua atitude à medida que aumentava a frequência à casa do pai, que havia casado de novo.

Chega um momento na vida dos filhos que eles precisam não só do teto e comida, mas também de ideias, informação, questionamentos. É a idade da busca, e nesse momento, se você tiver conquistado também a amizade de seu filho, terá uma oportunidade única de compartilharem experiências.


Algumas semanas depois, ela reclamava que o filho começou a reavaliar alguns hábitos e posicionamentos, refletindo as opiniões que eram fruto da influência dele e da nova mulher.

Diante da sua rejeição inicial ao que havia sugerido anteriormente, eu passei a ouvir em silêncio, servindo mais ao propósito do desabafo que ela necessitava, ao passo, que da minha parte, aproveitava para aprender com a experiência dela.

Nunca cobrei dela o que ela havia me dito antes — que deixaria a vida ensinar o seu filho!

A sensação dela à época, era que a "nova mãe" começava a fazer às suas vezes.

A dor dela era mais a substituição parcial do seu papel de mãe pela famosa "outra".
Ironia da vida?!
Imagino que não.

Existem casos piores quando a influência leva a descaminhos, drogas, criminalidade e radicalismos religiosos.

Se você abdica do seu papel de amigo mais velho do seu filho, outro o exercerá.


Palavras Finais

Comprar bens materiais para sanar um relacionamento prejudicado pela falta de habilidade de conviver com uma nova pessoa dentro da sua casa, é uma mística que apenas produz o sorriso comprado provisoriamente, até que o bem perca o interesse.

Infelizmente não abre as portas para o verdadeiro sucesso na convivência com os filhos que precisa ser construído sobre bases autênticas de vivência produtiva que sustenta o benefício do compartilhamento de ideias quando a razão já cresceu o suficiente para contestá-las.

Filhos não são propriedades que pensamos dominar obedecendo à cadeia hierárquica, transformando-os em nossas cópias ou subalternos.

Filhos são espíritos independentes sob os olhos da eternidade, porém sob a tutela provisória de outros espíritos que nasceram antes, os seus pais. Por isso, parte das suas naturezas são intrínsecas das suas individualidades.

Filhos herdam a genética que define o fenótipo.
O espírito, por sua vez, é independente do genótipo e representa a verdadeira natureza do ser que é construída ao longo de múltiplas experiências de vida durante a sua viagem pelas mãos da evolução transportada pela carruagem do tempo.

Resumo

1. Sempre que puder, evite a imposição.
Imposição é como morfina. Em excesso, mata.

2. Dê preferência à proposição de ideias e deixe espaço para que eles elaborem, quando então surge a sua oportunidade de participar de igual para igual, como um amigo mais velho.

3. Veja os questionamentos com bons olhos, um meio de assisti-los na difícil arte de antever consequências de nossas ações no aprendizado de ajuizar as alternativas que a vida propõe.

4. Lembre-se sempre que a imposição distancia você de seu filho.
A omissão também.

5. Se o seu filho é superdotado, agradeça a oportunidade de interação com benefícios recíprocos.

6. Nunca desista.
Ao menos você terá cumprido o melhor que pôde a sua difícil missão de amor.


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Você e Seu Filho - Ligando os Fatos

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